01 Junho 2006

 

Devaneio I revisited

Cosme e Damião, tende piedade desta ovelha, a barra da saia e a teta farta de sua memória dominadora o fizeram um transgressor meia-tigela. Ser demasiado existencialista é um risco assustador, de nunca se chegar a situações plenas e duradouras, além que lambusadas no ludibriante marshmallow bélico. Tornamo-nos insatisfeitos, atáxicos, insípidos, neutros e bonachões angustiados, ad eternum, até a imemorial realização do saber incompetente. O pouco que tenho de tenro existencialista em meus culhões, uma peça de alcatra sartreana, vejo como mais uma carta-condenação. Não augura felicidade alguma, antes pelo contrário: se não fossem estes frascos multicolores Nassau, ah, Nassau e a rapadura que não é mole na boca dos outros! Bahamas, seria o século dezessete?

Quando inventaram o apaixonar lá nas entranhas do eu indivíduo, ele não sabia nada sobre este amor semente. Sim, soava monstruoso, mas amei na pequena a idéia de conhecimento que poderia existir se ela - penetrantemente - também se enamora por mim. É a burocracia autodidata de prorrogar finalidades. O amor é o livro caixa do existencialista, onde o ponteiro passeia a braçadas pelos dividendos de quem, ao amor, o rabo abana.

Depois das apresentações - travestidas ou não - e depois das definições, do RG de cada lado desta falcatrua demasiada humana (depois de nos entupirmos com monções emotivas dignas de um filme Bogartiano) segundo a bula do discente na academia do chute no balde: com o pouco que roubamos das nuances de quem amamos é que começa a verdadeira averiguação deste outro. Ir ao cinema ou passear em um final de tarde junto ao mar, chupando calmamente o que do coco se chupa, é um truque romântico, e até tão torpe, que quase nunca falha. O amor é uma marmelada que cai macia no coração. O amor dura enquanto ainda houver novidade na prateleira.

Está juramentado: estes primatas malditos não sabem amar do fim para o principio, em uma ou outra destas relações de index 10 - severidade de ganho de causa de 1 a 10, sendo 10 um dromedário pau mandado. Cem gramas de bala e um cafezinho com você meu bem: "O amor é uma idéia escondida no prontuário da vida, maratona que se perde quando se corta a meta de possuir em possuir-me". Prefira acalentar, amaciar e amar uma pequena pelo nada miúdo que saberá desta, ao cortejá-la com a dissimulação forjada que lhe vicia. Mas por favor, justifique moralmente sua bagagem pélvica.

Em um aromático e girassólico ato de amor, tateado pela macia e gotejante face do figo ainda em fruta, alguma coisa terá de ficar esquecida na memória bruta, sacrificada de modo a beneficiar o prazer de quem se ama. Por este motivo, lavamos as mãos em soapex laranja, declamamos três vivas e seguimos a orientação dos nossos valores elementares e verdades tão oprimidas, representando a cena primitiva de todas as necessidades humanas com a glória triunfante de um Gengis Khan: foder, foder, foder.

Um corpo sob o meu, simplesmente isto, e sinto-me protegido daquilo que o cidadão cinzento de meu cluster mea-culpa adormecido aponta e inferniza. De costas para o intragável desentendimento do simples viés da existência, sinto-me usado, violentado, desmembrado em faces suburbanas nascidas em três frações de sumo humano: a criança, o infecundo e o defunto. Seja qual for a posição, o ato - foder - é sempre consciente e onisciente em sua resignação, e isto estraga a naturalidade do interlúdio. Os corpos já não conjuram sinfonias, não deslizam em desordem, não se pertencem. É necessário que haja a "chamada comando". Um berrante que organize a posição do rebanho. Um sussurro maldito que aperfeiçoe as técnicas para dois corpos desnudos. Que um deles chore ao outro o que há de ser feito. E que um manejo incompreensível e infantil faça com que os dois novilhos se perpetuem longe do hiperespaço da vergonha e da intemperança de se amar.

Realeza, me perdoe o mote poético, as lamúrias sustentadas pelas negativas proeminentes, pelo enredo barroco, pelo sepultamento das borboletas e das aspirinas, mas não deveria este seu servo ordenhar de sua matriz etérea alguma abordagem realmente dominante ?

Claro enigma cromossomiano, claro fetiche hormonal que o Deus maior lhe condiciona, um minete no feminino é um lamento de prazer segredado com o consentimento do proibido. Talvez quisesse era que a pequenina encontrasse na amiga a metáfora perfeita para se desfazer dos desejos que a atormentavam insistentemente, estes desejos de seus vinte. As mãozinhas num ofício de partilha vinícolo-corporal (e talvez a imaginação das raparigas se manifestasse no masculino, ah, dantesco!), a beleza technicolor que ofereciam era já um gozo antecipado. Era doce na abordagem esta fascínora depressiva, e picante no desenvolvimento táctil com as suas ou seus envolvidos. Murmurava-me instruções subconscientes como se fosse uma assistente do seu próprio prazer: quisera eu cansar-me disto. O amor de uma mulher por outra mulher é sempre um ato de vingança, isso eu sei. É uma masturbação da alma feminina. Deus, pai de cá, deixe-me amá-la de tal forma e com o componente bárbaro do cinismo, com toda rudeza existencial de querê-la com outra.

Em silêncio, às vezes com um sorriso mal disfarçado, um sorriso de nervos, seca e imóvel abraça meu corpo esquálido com o dom do fingimento universitário, como se minha única e verdadeira posse fosse presa fraca e sem hipótese de fuga. Toca nos pontos menos sensíveis do meu corpo: mas os erra. Procura alguma confiança: coitada. Quase que despreza aquilo que mais ama em mim: conjugações corretas. Sinto-a bolinar desonestamente o meu rosto: insistente. Espia um ou outro vestígio de repulsa: imã. Algum suspiro ruidoso, como um sibilo estrangeiro, catarro nos pulmões, ou o que quer que seja demente. Alguma impaciência feminina, algum tédio sexual, alguma “querência”: é decidida.

Demora-se, massageando-me o corpo para baixo e para cima mesmo que debilmente agressiva. Sinto-a respirar em minha infância. Atento e combativo, penso em minha mãe: logo a esqueço. Então chega, esbaforida: primeiro, masturba-me. Aí novamente. E por fim, masturba-me. Como se ela não necessitasse do próprio sexo para nada.

Nem eu.

17 Maio 2006

 

Por Marquês de Sade, guabirosquiando

Jamais tocada por qualquer genitália, a carne alva de Eva Branca não designa pureza. Mesmo passando longe das mãos sujas de graxa, tão comuns na vizinhança, há muito já conhece as malícias de quem trocou o rubor das faces de antigamente após um fiu... fiu..., por um convite erótico bem mais objetivo. É moça safada, de espasmos contínuos que aterrorizam as beneditinas da Graça.

Ao pé-de-ouvido, sua iniciação carnal se deu pelas palavras, no pátio da escola. Foi nomeando e renomeando as partes do corpo pela sua designação anatômica que ela descobriu junto com a paquera o prazer. Dos pés dele aos seus cabelos ondulados e compridos, passando pela anca larga, a boca carnuda e os mamilos rosados tudo tem um nome, ou seria, um apelido carinhoso.

Começou logo com banana – caturra e nanica- seguiram-se biscoitos, ora de morango às vezes de leite, passou por leguminosas e gramíneas – ervilha, feijão, milho – e aportou nos pequenos objetos cotidianos como chupetas, sapatos, travesseiros e, apesar dos signos nunca terem fim, chegou ontem no brioche. Palavras descentes a serviço da imoralidade e como se tornou maliciosa.

Quando começou a brincadeira não imaginava que todo dia, noite, madrugada e manhã iria querer brincar, cada vez mais e mais. Com uma certa urgência de viver, vai repetindo diariamente aquele catecismo que soa como uma festa de sentidos onde é anfitriã e, às vezes, também o cardápio. Tanto desejo e não tem onde colocá-lo, ou melhor, até tem, mas como dizer aos homens? Talvez diga “no bolso” que é a designação de algo bem mais secreto e profundo.

Seduziu quase metade dos rapazes do bairro com seus substantivos resignificados que desembocam sempre no “quero/não quero” e, por fim, eles querem o que ela já teve. Sua transgressão chega sempre antes. O curto de fio da moral que Eva carrega a atravessa antes para o outro lado e lá experimenta o pecado ainda inteiro, como a primeira mordida na maçã. Para quem ficou, só a sobra da fruta.

Com o fetiche da língua, que suprime grandes orações, incita um desejo autêntico que de tanta autonomia torna-se uma realidade que supera o real. Sua palavra obscena não representa é o próprio coito.

- O que está comendo?

- Um brioche

- Pode me dar um?

- Claro.

-Eu também.

E assim, entre cochichos e leréias, continua vivendo na eternidade da maçã.


04 Maio 2006

 

hipérbole anti-feminista



Despontava-lhe o pé por entre a toalha de mesa pesada, couraça de plástico impregnada. Pouco a pouco o pé soltava-se da sandália, a presilha machucando insistente o calcanhar mais do que magro, o que já o é por convenção anatômica. Os dedos abrem-se de uma só vez, abobalhados, e pousam no sintéco macio. Está calor, é vero, e ela sente que nada naquela sala é muito sólido: o tecido enrugado & vermelho dos sofás, que lhe ofende a pele descoberta dos braços, o tapete de lã de motivos desconexos, o gato de madeira estrábico. Sente que não está ali, que nada a toca, nada lhe considera. Somente o chão com as suas frestas entre as ripas de madeira envelhecidas lhe é querido, como lhe é querido tudo aquilo por onde se escorre. Descalçou-se, como se despindo, pousou as plantas dos pés bem rentes ao chão e saiu de casa em gozo rudimentar. Ao descer as escadas de madeira doce e rangente como a orquestra dos bambuzais, olhou para os pés achatados e feios, como que membranares. Não eram pés de chão, habituados a calcar a madeira dos palcos e tablados inspirados, como os dos bailarinos e seus movimentos levianos - sempre um mote. Eram pés de sapatinhos, recatados, encolhidos e conformados, formatados no sucesso da proteção funcional e urbana. Voltou para a casa findo o intento, calçou de novo as sandálias em motivos alusivos à candura seminal feminina, e voltou ao ofício do raciocínio circular que tanto a perturba. Era difícil sentir-se livre, como ciscando por terras ausentes de um chão em que o ser comum brote e com ela se encontre.

Há algo na natureza de bélico. Estava perdendo a lisura da pele. Era debaixo dos braços que pendiam carnes nem úteis nem tão belas. Não sabia o que fazer, pois de pé e chão já havia tentado mundos, braços não. Cortar, cauterizar, voltar a ver crescer carnes e peles. Resolveu o problema assim, de rompante: a partir deste dia não pensaria mais nos braços. Quando se visse ao espelho - e maquiasse a imaginação com os trends feministas - e o olhar se desviasse para as peles e carnes, treinaria o olhar para longe. Fixaria o olhar na janela da vizinha e nos minúsculos biquínis, que sempre lá estavam, pendurados. Que falta de gosto biquínis dos trezentos. Só mesmo a vizinha d´angola para comprá-los, a vizinha escanzelada como um cão. Anca. Anca demais.

Há algo na natureza de útero e manifesto.

02 Maio 2006

 

Rondó a um dadá degenerado (com o perdão da redundância)


Por Severino Capibaribe e suas influências Guabirosquianas

”Dadá, sozinho, não cheira a nada;
Não é nada, nada.
É como as suas esperanças: Nada.
Como o seu paraíso: Nada
Como os seus ídolos: Nada
Como os seus políticos: Nada
Como os seus heróis: Nada
Como os seus artistas: Nada
Como as suas religiões: Nada"

Manifesto Canibal Dadá

Foi colocar o segundo pé para dentro e a porta se fechou apagando a luz, deixando-o completamente no escuro. Espremido na gaveta de verduras, decolou a bordo de uma Consul 360 litros em uma viagem pelo tempo e espaço. Acompanhado de um queijo prato, um saquinho de leite tipo C, duas panelas com a sobra do almoço e uma, há muitos anos, amada marmelada foi conhecer o novo mundo ainda virgem de interpretações.

Sobrevoando a Alemanha de Bismarck soltou um urro estridente e, como resposta, ouviu xingamentos estranhos e foi abatido por uma rajada de balas jujuba soletrada por um estilingue AK 47. Uma saída de emergência, dessas pela esquerda, foi a solução, deixando desesperadamente a marmelada para trás.

Ejetado em um cavalinho de brinquedo, foi logo ganhando altura e velocidade, tanto que correu páreo a páreo com a luz por todos os séculos. Desde AC a DC passou no trote, só parou no intervalo e lá, sem classe alguma, mostrou a bunda com todos seus cabelos para o filho de Deus que piedoso, como quem dá a outra face, abençoou-a.

Seguiu assobiando até o parlamento onde girondinos e jacobinos se digladiavam de cueca samba-canção e pirulito de marmelo nas mãos. Com toda a força dos pulmões estes gritaram pela madrugada viva o rei e morte ao rei, ficou indeciso. Mas foi na bastilha que reencontrou sua marmelada, ainda que nas mãos de outro, para o seu desespero.

Pegou uma corrente de ventos temperados e dormiu por bons anos. Foi acordar pregado em azulejos onde um enorme vaso sanitário fazia suas necessidades sobre ele. Com os braços presos ao corpo e a boca aberta, engolia tudo, podendo pouco respirar. Esgoto, pãozinho, coco, coca-cola nada eram tão ruim como aquele mundo e tudo aquilo apenas o fez ganhar peso e uma úlcera que aos poucos vão denegrindo seu biótipo.

Já no hospício Mãe Gertrudes, ajoelhou, acendeu uma vela de aniversário e confessou para o bebedouro que o desejo era sua maior fraqueza, esse sim seu mais vulnerável estado. Por mais que tentasse não poderia suprimi-lo, em qualquer dos sentidos lá estaria ela. No cheiro de coalhada, na boca de dentes amarelos que salivava açúcar, no som dos cachorros beges da vizinhança ou pelo auto-toque de todas as noites emergia em suas dolorosas lembranças.

Não se distingue se a língua ou o pau, o fato é que colocou o membro para fora e arrancou-o com um canivete, pregando-o em seguida na parede na parede da sala.

Uma semana depois, quando já fedia, as pessoas pagavam uns poucos francos para vê-lo.

27 Abril 2006

 

Leros & Boleros


Tinha-o irritado aquilo mais do que deixar queimar um belo refogado. Lia o livro com enlevo - como se o absorve-se- a heroína tinha-se entregue nos braços do "o homem-que-a-amava-há-muito-tempo" e para trás ficava o marido fleumático, cara-de-bolacha e previsível. Tudo corria bem & muito literário, até que a heroína, que não conseguia ficar quieta mais do que dois minutos, decide que aquela paixão nunca poderia durar, se estender além dos colóquios do leito ativo, e que isto e que aquilo outro, e deixa o rapaz inconsolável, com as lágrimas a cairem-lhe pelo rosto viril e agora indigesto. De regresso ao marido bonachão, continua com as suas inquietações estrogênicas, e conclui que assim é que ela está acolchoada no edredon existencialista, que só ele a compreende e a leva, e outros leros destas conversas de neurótica. Ora, para finais molengas assim até vale ver novelas.

Acontecia-lhe muitas vezes, sim, com este marido turrão. Aquela vontade de rasgar o papel de cenário e espreitar o que além dele estava . Acontecia-lhe principalmente quando saía do túnel metropolitano, desonesto, cinza e proletário, sempre a caminho do trabalho.
Ainda subindo as escadas, dava com os cartazes publicitários a descolar-se do céu borrado, em nada se assemelhando ao céu da gênese. Imaginava que estendia a mão rechochuda, fazia um pequeno rombo com a unha do indicador e, após introduzir todos os dedos, à exceção do polegar, prolongava o rasgo até que fosse possível adentrar-se pelo drops surrealista que agora deglutia, enfiando lá a cabeça.
Naquele dia, talvez em resposta ao azul metálico que parecia ter sido derramado sobre todas as coisas e criaturas, a sensação de irrealidade foi ainda maior do que era habitualmente, defronte à sua Remington engordurada. Havia de aproximar-se o suficiente para rasgar o cenário se um colega palrador maldito não houvesse enfiado o braço no seu, conduzindo-o ao concreto abominável.
Quando reparou, estava sentado junto à secretária naftalínica. Viu Eulália então aproximar-se com um copo de plástico em cada mão. Perguntou-lhe docemente se queria um cafezinho, levantando os cantos dos lábios muito acima do que parecia humanamente possível. Entornou os cafés em cima da saia quando ele tentou arranhar-lhe a cara com uma volúpia fantasmagórica, em outro capítulo bastante dispensável.

"Porque é tão difícil admitir que estou triste?" perguntava ele ao espelho, em sua frágil imagem calva e absolutamente passível de qualquer tipo de repreeensão. Porque a sua imagem sai chamuscada: a imagem de um homem vencedor, corajoso e otimista fede a chifre queimado. Respira fracasso. E se não for tudo isso, o que me resta? continuou, sempre e eternamente para o espelho impaciente, com a impaciência pertinente aos espelhos dos náufragos. Fica só o que é, mas mesmo assim alguém que pode ser amado, talvez tenha pensado no mesmo momento em que deixou escapar com o cotonete arremessado ao vaso. Fechou a porta da casa de banho, vestiu o sobretudo acabrunhado e saíu. Era o dia da empregada doméstica e ele admirava o todo imcompleto que as datas comemorativas representam.

23 Abril 2006

 

Rondó ao artista degenerado

Acontece de querer sentar-me nela e ela já estar terrivelmente ocupada. No meu café, que não de esquina, mas a meio da rua inclinada forrada de calçada e caixotes de lixo antigo, tenho uma cadeira com anjos & Bárbaras. O que mais me agrada nela é que os anjos que nela repousam são insensíveis, é fato. Sento-me junto a eles e derretem-se aos poucos, como blocos de açúcar em chá quente - a ira que me consome por não ser tão Bárbara. Vivo irado e nada, exceto aos meus anjos sem forma nem cor, que me fazem tão áspero. Uma espécie de undercover angels, forjada a sua identidade. Só por eles sou um mastro, como aquilo que sou: uma artista de recorte erudito. Hoje a cadeira estava vazia, cadeira impávida. Esperei de olhos vincados na personagem ignóbil que se espreguiçava na minha cadeira e acendi um cigarro, levando a mão aos cabelos, como querendo penteá-los para trás. A criatura não se arredava do assento: virei-me com garbo, saindo. Senti um toque nas costas:

Eu ancestral, incontrolável.

Executar os devaneios mais simples tinha-se tornado penoso e indiscreto. Deixara de lavar os dentes e de tomar o banho com sua calma impotente. Não atendia o telefone, pois falar parecia-lhe não natural, além de tão traquejante: tinha de procurar as palavras no tato vazio, de preferir umas a outras e não encontrar razão maior que as justificasse. Recusava a escolha, uma vez que nada lhe parecia realmente necessário.
A lassidão tomara-lhe conta dos membros delgados, paralisara-lhe as mãos manchadas de tinta, no bicolor de uma imagem antiga, e atirara-o, por fim, para um canto da sala, onde dormia também em sua santidade. A lassidão autorizava-o apenas a ir buscar na cozinha sardinhas em conserva, que comia diretamente da lata, largada, vazia, no lava-louças onde apoiava já com as calças remendadas.

Regressava logo a seguir ao canto. Subia os joelhos e apertava-os contra o queixo, a espreita da lágrima que o intimava. Evitava olhar para lá, mas sabia que à direita, virado contra a parede rosada, estava o quadro que o ocupara durante as últimas semanas. Não conseguira resolvê-lo. Falhara na tentativa de dar sentido ao corpo que pretendia em luta com um adversário flácido e oprimido, aparando e desferindo o que de sua família agora excretava. Desgostava-o o resultado infeliz: um paleativo exercício de contorcionismo. Nada que evocasse a força descomunal do ser ausente, inquilino da própria memória, que lhe sugerisse sequer a presença. Já antes acontecera interromper trabalhos para não lhes pegar mais, embora nunca desistisse conscientemente deles. Levava estas telas para o sótão, a que chamava o sítio do limbo - também e daquilo que o degenerava. Deixava-os de molho, dizia a si próprio, para libertar-se e poder iniciar um novo projeto de falência. Àquela tela, porém, não a arrumara. Tão pouco a retomara, sentindo-se ele próprio no limbo por causa da malvada.

Os ruídos que subiam da rua enervavam-no, relógios se reproduziam em série. A audição era o mais vulnerável dos sentidos, pois não podia recusar-se inteiramente ao mundo, que, mesmo mitigado, lhe entrava pelos ouvidos em tiques e taques frequentes. Podia empurrar até a dor as palmas das mãos contra eles, que algum som sempre as atravessava: a gritaria das pequenas Bárbaras na saída da escola, a celebração do golo no café e seus undercover angels, o zunzum das vizinhas, os passos de alguém que subia as escadas para passárgada, o chinfrim dos canos numa casa velha amarrotada. Aos ruídos identificáveis juntavam-se outros, misteriosos, e era nessa altura, ante estes, que se via forçado a largar as orelhas, com medo de alimentar o rumor interno, produzido não sabia onde. Aquele sim, pensava, poderia facilmente submergi-lo.

22 Abril 2006

 

Dangu e os quatro cavaleiros do rapé

Pelo Viajante D. Caixote e seu papagaio Lorota



No tempo onde as mulheres usavam Tailleur e sapato bico fino, era chique fumar de piteira e cheirar rapé antes das rinhas de galo, eles bem que tentaram ser diferentes. Brigaram, cuspiram, gritaram alto, correram o mundo e se apaixonaram, mas enfim, foram quase comuns.

De todos, Rodrigo é o único lembrado. Dono de uma verborragia inconfundível, é objeto de estudo. Suas frases ilógicas e irresponsáveis são capas de agendas vendidas em dezembro para quem ele nunca gostou, é dissecado e aclamado pela crítica, só não é compreendido pelo grande público. Há alguns anos faleceu de uma incomum doença, mas não suportaria estar vivo para saber em que transformaram sua obra.

Já o gordo, até que era talentoso, mas morreu tão cedo que foi incapaz de deixar escrita sua obra-prima. Ataque cardíaco antes dos 30, coisa rara e triste, logo agora que, tão precoce, já dava sinais de alcançar a maturidade literária. Um poetinha menor ou um punhetinha mor, é o que sobrou para ele. Por algumas batatas fritas e milk shakes não foi capaz de completar seu ciclo e hoje lhe sobra a fama de autoritário e mimado rapaz de família..

Tinha também aquele que só dava sinal de vida quando todos achavam que ele estava morto. Tão procrastinador que nem chegou a publicar muita coisa, vivia dizendo que não tinha nada a dizer, mas verdade, se lixava para tudo isso. Vivia de amores, até que certo dia, um desses acabou com ele. Ficou louco e, assim como o Arnaldo Batista, foi internado em uma clínica psiquiátrica de onde pulou do terceiro andar. Nos bons anos, as mulheres suspiravam com sua poesia concatenada de All Star e espaguete ao molho branco , mas sua memória não resistiu aos anos.

E assim foram engolidos pelo tempo, onde o rapé deu lugar a substâncias sintéticas que também se cheiram e os sapatos bico fino foram trocados pelas botas ortopédicas. Em breve só Rodrigo sobrará. Nas palavras de Carol que conta essa história, e que anda tão caquética que já duvidam da sua sanidade mental, o sonho acabou não porque todos amavam a mesma mulher, mas porque eles amavam todas as mulheres e estas não compreenderam.

Há! já estava me esquecendo. Tinha também um quarto integrante, mas esse fracassou. Não aguentou a crítica e sumiu pelo mundo. Até que era engraçadinho, mas era sem duvida o mais fraco daqueles jovens rapesianos, como ficaram conhecidos, e por isso foi massacrado. Dizem que mudou para o nordeste, onde cria cabras e distribui balas para as crianças.


Ps. Conta-se ainda que essas quatro personalidades se reencontraram pelo sertão. Das cabras que esse último pastoreia, uma lhe é a mais amada. Seu olhar com carinho é sempre para aquela ali, malhada e sem jeito, a mais gorda e tetuda, que vez ou outra dá coice nas amigas, mas é de longe a mais doce e amável. Gosta de chamá-la de Dangu.

Dangu é para ele o animal onde seus amigos renasceram, os três em um só bicho. Acredita nisso porque Rodrigo, antes de morrer concluiu o seu octagésimo sétimo livro de poesia “Rondó da Cabra ou a odisséia de Dangu pelo sertão” na qual fala de uma certa cabra que dá leite condensado por aquelas terras secas.

E assim, naquele resto capim verde que a seca ainda não destruiu, o pastor que um dia foi rapesiano, coloca Dangu junto ao bode Bob acreditando dar a seus amigos o amor que eles não conheceram em outra vida.

17 Abril 2006

 

As duas faces da Ana

Por Marquês de Sade, às saudosas filhas de Tia Clara

Deitada com o ventre para o alto no sofá três lugares, uma rodela de pepino em cada olho e a face coberta de máscara branca gosmenta, Ana escuta pop rock chinfrim esperando fazer-se ainda mais bela com o passar da tarde. Se até o cuco cantar doze vezes tornar-se uma boneca de porcelana chinesa ou um biscuit qualquer, promete não mentir mais para sua mãe e estudar para as provas de final de semestre.

Em seu caderninho pessoal escreve essas e outras peripécias de adolescente e também sua já safadeza de mulher citadina. Por esta noite, no aniversário de sua amiga Júlia, cuspirá naquelas páginas esse segundo lado que baterá forte quando Bruno surgir de smoking, gravata de seda e barba que começa a se fechar. Alguns homens a fazem envelhecer mais cedo.

De quatro, na cama de um motel barato, até hoje só Beto e também José conhecem a gana de Ana, com o perdão da rima e de um adjetivo tão forte para tão meiga, “quase” moça. Sem ainda conhecer o prazer anal, Ana não se contenta em chupar, quer morder e engolir. Com ela, Humberto virou Beto e José- não virou Zé - virou patê e perdeu o serviço no dia seguinte e a antiga namorada, Rose.

Deixando os estudos epistemológicos de lado, no último feriado os gemidos de Ana mobilizaram a serra do Cipó e foram acompanhados com interesse pelas corujas dali, que daqueles dias em diante jogaram seus diplomas fora e renunciaram ao seu título de sábias. Igual Ana não há, com apenas 16 primaveras e já faz periquito dublar curió.

Segundo as corujas, que de vez quando também mentem, esse é o lado mais belo e sincero da garota, é sua face puta.

Já, de joelhos, orando um Salve a Rainha, Ana é outra pessoa. Um anjo para Padre João, que tem a certeza de conhecer seu lado doce ou seria Dove. Com a cara lavada, freqüenta a missa das 19 horas todos os domingos e, ao lado de seus amigos fiéis se mostra moça de moral conservadora. Em suas conversas no confessionário revela quase tudo - uma vez que Deus não vê a horta ou atrás da igreja - quer ser purificada.

Cantando de olhos fechados e fazendo questão de estampar fé no rostinho angelical, causa diversas impressões. O pessoal do fundo da capela acha que ela vai ser freira, já o pessoal lá de fora não esconde seu desgosto por quem consideram uma amolação, enquanto para os esposos fiéis é masturbação velada. Padre João recomenda cinco ave-marias pelos seus poucos pecados e seus pais se mostram orgulhos de tão pura criatura.

- Ana venha cá!

- Que foi mãe?

- Esse caderninho aberto em cima da sua cama, que barbaridades são essas escritas aqui?

- Não mãe, não é nada. Agora dei para fazer literatura, o professor que pediu na última aula.

- Literatura? Ah, sim!

Sim senhora, Ana deu para fazer literatura - prosa e poesia. Prosa clássica, onde ensaia um conto de fadas em que não faltará um romântico casório de vestido branco e buquê jogado às suas amigas não tão belas, e poesia modernista, dessas que se faz entre quarto paredes – ou em uma barraca - e tocam os cinco sentidos.

Há de salientarmos o paladar.


14 Abril 2006

 

Auto-estrada Sartre 66

Este estampido seco que nasce da nuca, e já no chão abobalhado, e já no chão me esparramando ao encontro do subalterno interior que me limita. Deus e o Diabo no cruzamento imperioso das crenças abomináveis, tornam este manifesto uma pandora psicanalítica afrescalhada. É o terror da calmaria, o desatino maior ainda que o molhar das calças. Deficiências a parte, somos normalistas a ponto de criarmos uma vida mediana à sombra de faculdades mentais apenas razoáveis.

Ela parece se empreender, de fato. Dois dos três anos de namoro não lhe consolaram. Apenas reside um terço de sua alma no orgulho infâme que possui de seus cabelos cacheados. Infância crescida com homens, cinco irmãos, cachoros e roupas poídas, como é o seu costume. Inteligência de meninha cu de ferro, um cu mais lindo que há neste hemisfério sim, mas um rosto sem sombra de dúvidas assustadoramente conjurado com algum tipo de piedade. É fácil perceber sardinhas se espalharem da base do nariz à base lisa e pueril dos olhos, onde convence - com aumentativos e causos de sua trupe amadorística de jovens desquitadas - este jovem a dar-lhe a face ao acontecimento inevitável da anti-aurora: um tapa desferido a seco, justo, como bem lhe agrada.

Ressoa o estampido nu, defronte à face rosada e quase que irresssitível, mesmo no controle absoluto de sua enfermidade emocional. Assustada, e ao devolver-me o desculpar em toda sua cordialidade, compromote-se a inaugurar algum anseio afetivo em seu atacado de bons costumes, fazendo assim com que minha imagem não seja tão somente aquela à qual se compreende em duas mãos e uma língua, agora bastante acanhadas. Sei do homem que não acontecerá destes lados, e de como se figura o auto-controle de seus hormônios e quereres após o tilintar maciço da tentação iminente. Estes gostos não são mais os mesmos, e é preciso calma na tormenta, ao revelar-se. Desgarrada por um trote alheio à sua caricatural angelitude, negada duas vezes pelo bom partido masculino que a pleitiava, pelo bom emprego e pelo propósito de confirmar-se mulher em algum possível traço de matrimônio, hoje já afugentado, se aconselha a quatro ponto cinco graus geladíssimos, em companhia de tipinhos de farta meiguice, conjecturando a obra completa da mulher em nada mais do que uma peça caprichada de alcatra. Não será a bandida do noir parisiense, fazendo de suas chacotas um punhal reluzente de desacertos. Nem será o tipinho lady, universalizando a causa nobre, se expondo ao crítico objeto que as maquiagens multicoloridas proporcionam. Seu arranque dominador desfigurará sim a incerta cara-metade, mas trará ao sucesso daquele que não a perde de vista, um grau e meio de malabarismo, para que então possa confirmar-se

Me atende os requisitos, sendo já uma carta decorativa a respirar em meus anseios com o teor outonal de quem já começa uma caçada. Parte rasa em seus destinos, agora com o sorriso resguardado. Sabe que o que me antecipa é a fraqueza do acaso. Não destinar-me ao tiro certo não lhe convencerá de meu cavalherismo bastante antiquado. A permanência de sua inconstância em atrito com minha falta de costume renderá os frutos magros da estação improdutiva onde agora aportamos, mas revelará, a bom grado, o amadorismo seminal pelo qual optamos ao iniciarmos um convite, que, francamente, vislumbra rebater a sonata número um da falta de sexo. O amor, este sim, regula-se em fina sintonia se formalizado o apreço, ou formolizado o intento, ou o que quer que seja nestes quesitos de entretenimento. Acontece que na auto-estrada de onde nos desprendemos, correr além da conta deixa frouxo o verbo.

Me atraso e penso se realmente o posso. Levantado e satisfeito, que Cosme e Damião nos dê a felicidade de um realejo. É sim o terror da calmaria, aquela que conforta a estasia, residindo na porta do peito a sensação torpe da impotência social degenerativa. Mas impotências a parte, seremos sim existencialistas a ponto de recrutarmos toda tentação para o âmago assistencial que responde por "coragem".

Sinto que poderemos algo, realmente, quando no exercício de sentir nos desmancharmos.

11 Abril 2006

 

O último dia de trabalho

Por Severino Capibaribe, e sua estranha mania de falar sozinho



O andar vagaroso e um tanto desajeitado revela que os bons anos ficaram para trás, se esvaíram no par de chuteiras entulhado na dispensa, no blazer de casamento mofado no cabide ou naquele retratado de cabeceira que remonta aquelas férias de verão no Guarujá. Mais três dolorosos degraus, sucedidos de um instante para recuperar o fôlego, e o olhar desperta uma série de lembranças que insinuam a pontinha de um sorriso insosso, desses que entalam na garganta e deixam a boca amarga.

Há quarenta anos mora ali, mas parece a primeira vez que visita aquele cômodo. Puxa a cadeira para a frente da janela e quando senta, o ranger toma conta do ambiente quebrando a hegemonia do relógio da parede. Desabotoa o suspensório, ajeita a boina e do bolso retira vagarosamente o maço de cigarros. Olha para a foto de um rato morto estampada, propaganda do Ministério da Saúde que lhe causa mais um mal-estar. Pensa em como os tempos mudaram e a imagem de seu pai sentado na calçada com aquele velho canivete cortando fumo de rolo lhe parece irreal.

Pela janela observa a quase inércia que há em sua rua, digo quase porque uma pequena garoa, que se mistura aos fracos raios de sol, dá um ar um tanto romântico e nostálgico para aquele final de tarde. Com o olhar imobilizado, como se estivesse virado para dentro de si, vai ganhando na pele tons de peça de museu e no tecido adiposo uma sensação de arrependimento. Mais um trago e solta a fumaça vagarosamente como o próprio instante.

“Vida mais defendida do que realmente vivida”, resmunga como quem mastiga gengibre. Desde os quinze anos trabalho ininterrupto, de sol a sol, e nesse instante voltava do tão esperado último dia de labuta, mas o que o dominava era uma infinita preguiça da vida que teve. Burocracia de mudanças constantes que sempre o levaram ao mesmo ponto, o zero.

Até os quarenta, macacão e bota de borracha, homem moderno industrializado, manufaturado. Depois dos cinqüenta, homem pós-industrializado ou pós-homem virtualizado e que por poucas paixões não é apenas um papel de parede no microcomputador, que por sinal vem envelhecendo até mais rápido do que ele. A fumaça do cigarro bate na janela e o envolve em branco nevoeiro, é como uma imagem de despedida.

O peito murcho estampa a ausência de verdadeiros amores. Uma meia-idade meia boca é o que teve. Sentado ali, percebe que renunciou a vida que sempre quis em nome de algo intangível e sem sentido. Não entende porque suportou aquela disciplina, a servidão de todos os dias sem que pudesse agir ou pensar por conta própria. Gostaria de recomeçar tudo novo, mas de modo diferente.

Sem ligar para o Ministério da Saúde, acende mais um, dois, três... enfim, todo o maço queima enquanto seu olhar se mantém fixo no nada. A noite adentra e continua ali parado, parecendo querer reverter o tempo, ao passo que a tarde caí e as nuvens se abrem dando origem a uma bela noite.

É a primeira vez que se sente tão lúcido, conseguiria até chorar se achasse que valesse a pena, mas já a essa hora da vida é incapaz de perceber a poça d’água que formou no jardim. Lá alguns insetos se afogam e a lua dá as caras em forma de chapéu, acompanhada de algumas tímidas estrelas.

“É apenas mais uma noite”, resmunga novamente e segue até a padaria para comprar um novo maço.

09 Abril 2006

 

Iniciação

Nestes conceitos tão arraigados, Flora adormece santificada, como se fosse preciso uma noitada, onde encontrar-se imersa em plenas pálpebras, aconchegando os olhos castanhos em conchas de saudade, seria o instantâneo revelador de toda sua sobriedade. Queria enamorar-me, Flora, com sua poética mista e de tantos codinomes. Se me jura eternamente, no advérbio estagnado em plena decadência, o eterno ser que não podia e foi, até que nos inaugurassemos (o que acabou por acontecer precocemente), como se inauguram as polêmicas, faz com que me sinta hoje o recém-nascido e pobre ser-humano que o fracasso condena, no colo órfão de um conto de fadas que fala por si mesmo.

Flora derrama cabelos negros, abrindo-os em funil, no escorredouro de suas tramas; clara espécie, longilínea, distante da preguiça que acompanha a forma pouco coordenada de vestir-se com todas estas variedades de malha. No café, em mesa e rosca de senhoras, é boca velada e fotocópia paterna, não se envolvendo em pastas e costumes familiares, sempre programados com o auto-destrutivo da moda. Se contenta em água-de cheiro, ou a lavanda natural que sua pele emana, tão notável é a moleca, daquelas raparigas de dezesseis horas com o cheirinho de uma quase infância.

Nunca seria de abrir garrafas, de embriagar-se em pêlo, mas estaria a servir-me, sempre por inteiro. Insistente a molestar-me com o ciúme viciado que aprendeu em poucos gracejos, neste fictício interlúdio de não tê-la, afoga qualquer solidão somente por viver à margem do silêncio emocional, livro aberto ao coração mineiro. Antes força motriz a guiar-me pela imprecisão dos mais tempestuosos desejos, ensinou com grossas lágrimas que o mar por onde ando é o que carrega o tempo, e navegar ciente de qualquer causa é tão somente desbravar o armado concreto com o manual precoce das deduções simplórias do prometeu moderno. Educada em vida frouxa de cinema, não aprende a beijar outro homens sem que um pulso latejante de troca a faça entediar-se em seu sossêgo. Nas memórias que hoje desperta, no macio desbotado das fronhas e meias, combina o lilás e o verde, cores que dá aos mais diversos impropérios. Seja homem, o primeiro, ou seja a côrte, no incipiente manifesto, o que a preocupa vai além da carne e daquilo que lhe salga, o que combate com lapsos de criatividade superlúdica, afastando os falsos docentes de sua caminhada com uma imagem policrômica de fantasia e desenhos.

Flora é nascida em uma colagem de contextos letrados, sendo o mais forte deles esta arte vivente, semente de berço. Colore e desdobra, lapida e até molha. É ceramista de rosto borrado, mãos frias e incontidas: o que mais me encanta é o suor discreto que brota em amêndoas vítreas, na fronte franzida pela atenção demasiadamente encorpada. E sempre que faz surgir uma mandala crayon, um cisco em um ponto ou um auto-retrato; um descanso de mesa, caleidoscópico vitral, ou uma cerâmica ancestral tão rústica em traços grosseiros de inspiração desconhecida, percebo a mulher que se ergue em um ou dois passos, compasso ritmado que a livra da penitência do acontecer vermelho, de desvirginar-se. Entregar-me não seria apenas um de seus exageros. É que a arte pela arte lhe desconcerta a rota interior, os ramos ondulantes de compreender-se nua e fêmea, reconhecer-se querendo. De falar amor não compensando apenas aquilo para que o coração ainda não se exercita.

Aprender a amaciar-me e modelar este corpo ao tempo que insiste e espera: é uma meta. Renovar-se em seu intento de buscar a felicidade em dramas que não somente firam, mas que lhe procurem, a fundo, no exercício quase matemático de formatar os íntimos de sua intacta feminilidade. Flora ancora os braços brancos, pálidos, como se houvesse o medo do primitivo. Regula a voz com a fineza que herdara dos sábados onde não se achou. Abraça e é capaz de ocupar o corpo do outro com a negação daquilo que de matéria se conhece. Mas se existisse como flor, somente seria uma orquidácea sentinela, no tronco de um domínio maior, que a qualquer monção se desvencilha e a encerra.

Sei sim que floresce um Deus naquilo em que se ama e protesta, mas não se pode amar o correspondente sem que antes se aprenda a resistir ao egoísmo de somente desejá-la pelo que há entre as pernas. O lúdico, se dado por vencido, levará sua fluidez ao martírio da inocência.

E como poderia amar sem as chagas da iniciação iminente ?

08 Abril 2006

 

O Vôo de Jujú

Por Marquês de Sade, sentado na calçada contemplando o céu.



Os olhos apertadinhos de Jujú me encantam e me cantam. Bem escondidinhos entre as justas pálpebras, como em uma brincadeira de pique-esconde, me mastigam como se a jabuticaba fosse eu. Ligeiros e espertos são o que mais a identificam. Os pequenos peitinhos empinados, a orelhinha com piercing atravessado e a vulva que marca a calça jeans apertada não chamam tanto a atenção como aqueles os olhinhos puxados.

Menina do tipo que sabe rebolar com desenvoltura – nem pouco, nem muito - suas nádegas balançam no morno da estação. É literalmente gostosa não só no tipo, mas pelo cheiro, pela linguinha presa e, claro, os olhinhos caídos. Não é dessas que se mostram nuas em calendário de borracheiro, é diferente. Feita sob medida, aparece em toda tarde de calor em que só resta suspirar baixinho:

- Jujú vem, vem. Vem devagarzinho ver como a vida pode ser boa. Ainda dá tempo de tomar sorvete amanteigado de pistache, essa semente de sabor delicado que fazem os passarinhos voltar a trepar nessa época do ano.

Mas a danada resiste. Faz carinha de mimo, finge-se de indecisa e a boca fica a salivar. Quando faz que vem, breca, deixando aquela marquinha amarelada bem no centro do peito. Imploro clemência, mas nada quebra seu coração gelado de granito, onde ainda não existe amor. Definitivamente, Jujú não dá – só vende.

E como menina que não dá, ela flexiona levemente os joelhos e num impulso decola. Sem ligar para a gravidade, começa sobrevoar a capital mineira. Sobe batendo os braços de forma sincronizada, como se estivesse em uma piscina, e vai ganhando altura. Em parafusos ela corta o céu de um lado para o outro.

Após alguns minutos, um rasante passa raspando os postes e as copas das árvores. Como se diverte com o sofrimento alheio. Por horas voa, até que resolve aterrissar. Desce com sutileza - nem assim ela perde a classe.

Já em terra, com sorriso de boca grande e malícia naqueles olhinhos, Jujú oferta caro.

E eu pago, e ela paga.



OBS: E as bocas maldosas caluniavam que Jujú viraria cereja.

05 Abril 2006

 

Acalanto a sangue frio


Poderia ser erguido sem esforço sobrenatural ou sem qualquer artifício de questionável paranormalidade. Erguido por qualquer uma destas crianças loiras e temperadas, formiguinhas vadias de natureza deliciosamente harmônica, que lhe invadem o íntimo de cada alvorada com as gargalhadas da vítrea juventude em botão, hoje juventude amarela e quiescente, por ele pouco relembrada (e mesmo que a criança medíocre, serpente ondulante a passear pelo casebre acanhado, ressurja em ímpeto desbravador da consciência há muito adormecida, os blocos maciços do infortúnio insistem em separá-lo daquilo que, outrora, o pertencia, como pertencemos, tacanhos, no fulgor do fanatismo monoteísta, a um único ente revelador, maior e talvez superior em causa e princípio).

Dos quarenta e oito quilos de massa corporal submersa em um cobertor de dobras e esteiras dérmicas a muito adormecidas, sabe que "estética" é palavra borrada em seu prontuário de partidas e chegadas, sempre tão inesperadas e controversas. Imóvel, bolinando suavemente dois felinos mestiços e alguns biscoitos amanteigados em lata, desconstrói a idéia de tempo e projeta um relógio imaginário onde o ponteiro, amolecido, insiste em passear abobalhadamente pelos doze pontos fixados entre a parede e o espaço. Prontuário cabalístico, de números e nomeclaturas vãs que se superam em um misto de sadismo e ausência absoluta de piedade. O prontuário do inválido.

Sustenta resignado o fardo quasi mortem, a pedra fundamental de sua peregrinação terrena em favor daquilo que, de natural, o homem realiza e empreende; o arcabouço temporário a limitar indefinidamente qualquer possibilidade de um dia ser asa, vôo impresso nas imagens vetoriais que rearranja ao manejar os porta-retratos, já e para sempre estrangeiros, com o desgosto peculiar daqueles que, renegados, consentem. Relaxa a musculatura lombar com um espreguiçar forçoso, o suficiente para despertar a mesma musculatura que redescobre Hyldon no rádio-relógio antiquado e dèmodè, assim como toda fração ar / ambiente que azeda sua invisibilidade social há degradantes dez anos.

Urinar, comer, banhar-se. Sua essência fisiológica extirpada em promissórias. Sem o tato e a sensibilidade modular que seu leito material imprime, convive em um divisor vazio de sensações agora somente possíveis quando adotadas, ou quando conseguem se encontrar em qualquer um dos substratos cefálicos que ainda permitem a invasão de estímulos sensoriais que não aqueles acompanhados pela nudez acinzentada da derradeira falência existencial. Produto e também combustível de um sucessivo rancor materno-filial, de lúgubres delírios paternos a lhe impor as obrigações de um homem que nunca afloraria ou mesmo retrato cuspido de uma mãe inquisidora e fundamentalista in extremis (onde poderia simplesmente o encaixar entre peças de cordeiro e outras iguarias abatidas ou até mesmo a pedintes embriagados no éter da promiscuidade fraternal) afundou-se na própria carne a ponto de desencontrar-se com Deus e com qualquer reminiscência de lucidez, ainda que notadamente impossível dentro do contexto magmático que a vida lhe enovelava naquele momento. Pulverizou T7 sem noticiar-se de que aquela altura era em demasia inoportuna para se alçar o vôo do desprendimento. Sem noticiar-se que ainda somos capazes de permanecer no solo dos infernos sem alguns dos componentes anatômicos que o Deus rococó modelou com o barro das mazelas, agora padece em duas rodas, no conforto da imobilidade a jusante.

A cortina berra, e é oito e trinta da manhã, junto com as crianças loiras que gritam cantigas inebriantes, mântricas, desencontradas. Na camisa abotoada, de brim azul marinho fosco, um bottom daquele band-leader britânico que, acredita, apenas não conseguiu correr. Correr, usar isto aí que lhe sobra, os membros que se dobram, e seria sempre ressureição e glória. Carregada, limpa e indefectível: a solução para todas as manhãs desta vez vai acordar logo após seu executor. Aconchegante na caixa de sapatos e bem resolvida em um brilho metálico, seu opus tem calibre, e ressoa um acalanto que não o fazia chorar desde a última vez em que reconheceu amor em sua meia-vida.

Diferente do acalanto a sangue frio em que a vizinhaça, subitamente, se viu envolvida naquela justa hora.

04 Abril 2006

 

Toada do Sertão

Pelo viajante Dom Caixote e seu papagaio Lorota


Aconteceu em 1º de abril, mas por mentira ninguém tome. Nessas terras em que a peixeira anda amolada e a garrucha carregada, o que vale mais é a palavra de um homem. Aqui em Jararape, vilarejo por onde passou Lampião, a caatinga vence o cerrado e duela com a seca para brotar do chão. Foi nesse lugar de sertanejo bravo que conheci José Orelhiano, luthier do sertão, que todo final de tarde, sentado na calçada, pitava seu cigarro de palha e afinava de ouvido um novo violão.

Vivia uma vida pacata até que uma peça o destino lhe quis. Batiam doze badaladas no sino da matriz e José voltava do mato, onde a boa madeira era a cada dia mais escassa, sem se atentar para o cansaço. Calça puída, camisa rasgada, facão na cintura, alpercata acidentada e, transpassados no pescoço, o cantil e outras tralhas que um dia deram nome ao cangaço.

Foi entrar em casa e começou a gritaria estridente, o que aconteceu ali ninguém viu, mas muita história se arrastou por essas terras de boca quente. O que dizem aqui é diferente de lá, cada canto tens seus contos. Eu também não vi e posso pouco falar, mas o que eu não sei meu papagaio pode me ajudar.

Dizem que adentrou pela cozinha, distraído e bem descrente, sem se atentar que em cima da mesa estavam uma cuia de farinha e meia garrafa de aguardente. Ficou perplexo e confuso, quando deu com os olhos em dois intrusos trepando na cama que um dia dormiu sua mãe Teresa. Sem bem entender a safadeza, demorou alguns instantes antes de reconhecer a quenga da casa amarela e o padeiro que cumprimentou esta mesma manhã pela janela. Raivoso:

- Saiam da minha casa

- Já saio, mas fica calmo. Disse o padeiro em tom que José considerou displicente

- Não escutaram. Saiam da minha casa, caso contrário todos apanham nesse instante.

- Já saio. Disse ele agora realmente displicente e, de esguelha dirigindo-se a companheira, desafiou em tom irônico. - Essa última parte como ele não á capaz de cumprir, é melhor eu nem ouvir.

José ficou vermelho e, sem pestanejar, puxou da bainha o facão enfiando por três vezes no bucho do mancebo. Possesso e fora de controle, para horror da pobre menina, ele continuou a carnificina. Com o jovem ainda vivo, arrancou-lhe de centelha as duas orelhas. Por fim, já mais calmo, acendeu uma vela e rezou duas ave-marias.

Parou e ficou ali imóvel na pitimba, até que no final da tarde mesmo do dia, guardou no bornal as duas orelhas e caminhou para o meio da caatinga. Com elas próximas ao coração escutou como nunca antes o canto dos pássaros do sertão. Que bem cedo declamam poesia, já pelo sol do meio-dia gorjeiam de agonia e a tarde, com a barriga quase vazia, cantam para espantar a solidão.

Já de volta a casa, não esperou nem a próxima alvorada, juntou suas ferramentas, deixou na mesa uma folha rasgada e saiu sem rumo certo, mundo a fora atravessando esse quase deserto em uma longa retirada.


“Uma flauta: como
dominá-la, cavalo
solto, que é louco?

...

Como traçar suas ondas
antecipadamente, como faz,
no tempo, o mar?

A flauta, eu a joguei
aos peixes surdos-
mudos do mar.”

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